Provos; Anarquismo Misticismo e Maconha em Amsterdam

27 fev

Amsterdam é mundialmente conhecida por sua tolerância ao uso de  drogas. O que poucas pessoas sabem é que na década de 60 havia um grupo de jovens anarquistas que foi responsável por uma revolução na forma de tratar questões que até hoje são vistas com intolerância pelo resto do mundo. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

A cidade de Amsterdam sempre teve um grande fluxo de  viajantes de toda a Europa.
Por ser uma cidade portuária recebia todo tipo de gente e pelo fato de ser um local isolado do resto do país era escolhido por muitos anarquistas, místicos e pensadores libertários como um bom local  para viver.  A cidade holandesa foi palco de muitas revoltas populares e o movimento anarquista se manteve muito forte por longos períodos. A atitude politicamente ativa dos habitantes de Amsterdam vivia em comunhão com uma forte cena esotérica. Além de abrigar diversos grupos de alquimistas, vegetarianos,  budistas e ocultistas de todas as espécies, a cidade foi o quartel general da Ordem da Estrela do Oriente de Krshnamutri. Algumas características da arquitetura e localização da cidade possibilitavam interpretações místicas a respeito de fluxos mágicos de energia que passavam por ali, e sobre simbolismos ocultos nos desenhos da cidade.

No inicio dos anos 60 duas figuras foram decisivas para o novo rumo do anarquismo e do esoterismo local:

Bart Huges (que foi marido de Amanda Feilding , um dos maiores nomes da luta pela legalização da cannabis atualmente ) um jovem estudante de medicina que em 1958 foi cobaia em estudos com LSD na Universidade de Amsterdam, fez um estudo que tinha como referencia o yoga e o efeito de substancias psicoativas. Sua teoria trouxe de volta a  prática ancestral da trepanação craniana. A cirurgia primitiva consiste em abrir um pequeno orifício no crânio, o que possibilitaria ao paciente um estado permanente de consciência expandida, como se ele estivesse para todo o sempre sobre o efeito de LSD. Huges fez de sua operação um evento público, retirando as ataduras da cabeça em uma praça,  ao som do rufar de tambores revelou seu “terceiro olho” à uma multidão atónita. O evento ficou conhecido como o mais importante happening (manifestação artística descendente das apresentações dadaístas) do momento. Exibições públicas das mais diversas naturezas, passaram a se tornar cada vez mais  frequentes. Entre os mais notáveis happenings está o do artista  Fred Wessel, que  após abrir todas as torneiras de casa promovendo uma inundação, abriu as portas para o inverno holandes, transformando sua casa numa pista  de patinação livre.

Robert Jasper  Grootveld era filho de um anarquista que sempre o alertou sobre os verdadeiros inimigos do homem: o K-K-K-K-K-K (Kerk, a igreja; Kapital, o capital; Kroeg, o bar; Kazerne a caserna e Kommenie, uma importante fábrica holandesa).
Grootveld teve uma vida incomum , largou cedo os estudos, viajou para França num triciclo e foi como marinheiro  para a Africa do Sul. De volta a Amsterdam viveu num barco, navegando pelos canais da cidade vestido em trajes africanos e fumando grandes cigarros de maconha. Num dia enquanto fazia um exercício de yoga indicado por  Bart Huges, (o jovem propagador da trepanação craniana) Grotveld caiu, e disse ter sido iluminado. Durante o acidente ele viu mais um K (Kanker, Câncer) e para complementar, o nome da maior fábrica de cigarros da Holanda de chamava Kerkhof.
Grootveld  Chegou a conclusão de que as empresas de cigarro são as representantes oficiais do grande mal que é o sistema capitalista e que o câncer era inevitável numa sociedade movida a fumaça de carros e fumo. A partir dai assumiu uma nova identidade, a do Mago Anti-fumo. Agora o místico anti-tabagista desenhava um grande K ou a palavra câncer em todas as publicidades de carros e cigarros da cidade e por isso foi preso, chegando aos jornais algumas vezes. Andava fantasiado pelas ruas  pedindo cigarros para “ajudar a acabar com eles da face da terra”, fazia intervenções em lojas que vendiam fumo e criou uma igreja (o K Temple) onde as pessoas fumavam sem parar e recitavam “mantras” como cof  cof cof (o som da tosse) ou: Publicidade, publicidade, mais publicidade.

Grootveld e seu K Temple

De acordo com o mago, esses rituais ajudariam as pessoas a largarem o vício por entenderem a natureza dele e tudo o que está por trás do hábito (um conceito tântrico).  Durante um dos rituais onde eram queimados em fogueiras, cigarros e propagandas, houve um incêndio que mandou o mago novamente para a cadeia. Preso e solto sistematicamente sua popularidade crescia cada vez mais.  Uma outra coisa notável sobre Grootveld é que ele defendia o uso de maconha como uma alternativa ao uso do fumo industrializado das grandes empresas

PROVOS!

Dos encontros no K Temple de Grootveld e nos  diversos happenigs que aconteciam na cidade, se formaram grupos de jovens anarquistas, artistas e tudo mais, que resolveram fundar um novo movimento chamado  Provo. Uma das principais atividades dos Provos era a elaboração de ações anarquistas chamadas “planos brancos”. O primeiro foi o da “bicicleta branca”, que tratava do transporte sustentável e do fim da propriedade privada. As bicicletas brancas dos Provos eram espalhadas pela cidade para que  todos pudessem usa-las e passa-las a diante, tornando menor a necessidade de carros, que eles qualificavam como um transporte sujo perigoso e capitalista.
A mensagem anarquista embutida no plano e a popularidade que o grupo estava tomando com a ação, fez com que a polícia entrasse em guerra contra as bicicletas, apreendendo muitas delas, que novamente surgiam nas ruas e voltavam a ser apreendidas, chamando a atenção dos jornais e revistas locais, o que acabou aumentando a notoriedade do grupo que atraia cada vez mais jovens.

O  plano que mais nos interessa aqui no contexto AnarcoKunk sem dúvida foi o Marihu Project

A ação anarco-canabista consistia num divertido e  audacioso jogo com as forças policiais;  Espalharam por Amsterdam centenas de maços pintados à mão com desenhos fluorescentes, contendo baseados feitos com folhas secas, algas, palha, pedaços de cortiça e também, naturalmente, maconha. Espalhavam também com as regras do jogo: “Cada um pode fabricar sua Marihu (…) Cada qual pode criar suas próprias regras, ou omiti-las”.  Algumas das regras gerais do jogo incluíam entregar à policia  participantes fumando maconha em casa ou até mesmo se entregar para a policia portando maconha;

” Fora os pontos que vem dentro dos maços de marihu os participante podem obter mais pontos se forem interrogados pela policia (10 pntos) se sua casa for revistada (50 pntos), se forem presos (100 pontos) ou se fizer,  por vontade própria   uma visita aos agentes dos narcóticos (150 pontos)”

As centrais telefônicas da polícia ficaram congestionadas com chamadas anônimas de pessoas entregando os vizinhos como usuários de maconha, muitas feitas pelos próprios Provos para aumentar a confusão.

Grootveld fala para a mídia: “Para dar caça a alguns consumidores de erva, uns agentes, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões-surpresa, que depois são propagadas na imprensa, mediante artigos escritos por jornalistas amiúde alcoolizados e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da televisão ou da nicotina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve consumir uma determinada substância?”

Um funcionário da polícia declara a imprensa: “… para nos a situação começa a se tornar problemática. Sabemos muito bem que no decorrer das reuniões dps participantes desse jogo fuma-se maconha, mas não podemos efetuar uma revista toda vez que somos chamados.”

Durante muito tempo os Provos foram  combatidos em Amsterdam. Foram responsáveis por um estrago num casamento da família real holandesa  e difundiram ideias contraculturais antes mesmo do movimento hippie. Em determinado momento as autoridades locais perceberam o potencial econômico daquelas manifestações que atraiam turistas de vários lugares do mundo para a pacata cidade. Percebendo que suas ações estavam sendo cooptadas pelos interesses do mercado e do Estado, os Provos fizeram uma cerimonia pública anunciando oficialmente o fim do movimento.

Para saber mais sobre os Provos existe uma versão virtual do livro de Matteo Guarniccia chamado;  Provos, Amsterdan e o nascimento da contracultura Link: http://www.4shared.com/get/ubvrZivl/Coletivo_Baderna_-_PROVOS.html

Uma resposta to “Provos; Anarquismo Misticismo e Maconha em Amsterdam”

  1. Enkio maio 12, 2011 às 5:04 am #

    mais posts como esse! sensacional!

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