CONTRA A LEGALIZAÇÃO

1 jun
 

Por Hakim Bey

Como escritor, eu fico angustiado e deprimido pela suspeita de que a “mídia divergente” se tornou, em termos, uma contradição – uma impossibilidade. Não por causa de algum triunfo da censura, no entanto, mas o oposto. Não há censura real em nossa sociedade, como Chomsky ressalta. A supressão da divergência é atingida, paradoxalmente, permitindo à mídia absorver (“ou cooptar”) toda divergência como Imagem.
Uma vez processada como mercadoria, toda rebelião é reduzida à imagem de rebelião, primeiro como espetáculo, e depois como simulação (veja Debord, Baudrillard, etc). Quanto mais poderosa a dissidência como arte (ou “discurso”), mais impotente se tornará como mercadoria. No mundo de Capital Global, onde todos os meios de comunicação funcionam coletivamente como um espelho perfeito do Capital, podemos reconhecer uma imagem global ou um imaginário universal, mediada universalmente, sem qualquer periferia. Toda Imagem foi submetida a um cerco e, como resultado, parece que toda arte torna-se impotente na esfera do social. Na verdade, já não podemos sequer supor a existência de qualquer “esfera do social”. Todas as relações humanas podem ser – e são – expressas como relações de mercado.
Nesta situação, ao que parece, “reforma” também se tornou uma impossibilidade, uma vez que toda melhora parcial da sociedade será transformada (pelo mesmo paradoxo que determina a Imagem global) numa forma de sustento e desenvolvimento do poder do mercado. Por exemplo, “reforma” e “democracia” já se tornaram um código para a forçosa imposição de relações mercantis sobre os antigos Segundo e Terceiro Mundos. “Liberdade” significa liberdade de corporações e não de sociedades humanas.
Desse ponto de vista, tenho sérias ressalvas sobre os programas de reforma dos Guerreiros anti-drogas e Legalizacionistas. Indo mais longe, eu diria que sou “contra a legalização”.
Não é preciso dizer que eu considero a guerra às drogas uma abominação, e que eu exigiria anistia incondicional imediata para todos os “prisioneiros de consciência”, supondo que eu tivesse algum poder para fazer exigências! Mas em um mundo onde todas as reformas podem ser instantaneamente transformadas em novos meios de controle, de acordo com o “paradoxo” esboçado nos parágrafos anteriores, não faz sentido continuar exigindo a legalização simplesmente porque parece racional e humano.
Por exemplo, consideremos o que poderia resultar da legalização da “maconha medicinal” – clara vontade do povo em pelo menos seis estados. A erva cairia instantaneamente sob os drásticos novos regulamentos de “Cima” (a AMA, os tribunais, seguradoras etc). A Monsanto provavelmente adquiriria as patentes de DNA e “propriedade intelectual” da estrutura genética da planta. Provavelmente leis seriam apertadas contra a maconha ilegal de “uso recreativo”. Fumantes seriam definidos (por lei) como “doentes”. Como mercado, a Cannabis logo seria desnaturada, como outros psicotrópicos legais, tais como café, chocolate ou tabaco.
Terence McKenna uma vez destacou que praticamente todas as pesquisas úteis sobre psicotrópicos são realizadas de forma ilegal e, muitas vezes, financiadas clandestinamente. Legalização possibilitaria um controle muito mais acirrado de cima sobre toda a pesquisa de drogas. As valiosas contribuições marginais enteogenicas provavelmente diminuiriam ou cessariam completamente. Terence sugeriu pararmos de desperdiçar tempo e energia pedindo permissão às autoridades para fazer o que estamos fazendo e simplesmente seguir em frente.
Sim, a guerra às drogas é má e irracional. Não esqueçamos, contudo, que como atividade econômica, a guerra faz bastante sentido. Não vou nem mencionar a crescente “indústria das correções”, os orçamentos inchados da polícia e da inteligência ou os interesses de cartéis farmacêuticos. Economistas estimam que cerca de dez por cento do capital circulante é “dinheiro cinza” derivado de atividades ilegais (em grande parte de drogas e venda de armas). Essa zona cinzenta é na verdade uma espécie de fronteira flutuante para o Capital Global em si, uma pequena onda que precede a grande onda e lhe oferece “senso de direção” (por exemplo, dinheiro cinza ou capital “costeiro” é sempre o primeiro a migrar dos mercados deprimidos para os mercados prósperos). “A guerra é a saúde do Estado”, como Randolph Bourne disse uma vez, mas a guerra já não é tão rentável como nos velhos tempos de pilhagem, tributos e escravidão. Cada vez mais a guerra econômica toma o seu lugar, e a guerra às drogas é quase uma forma “pura” de guerra econômica. E já que o Estado Neoliberal concedeu tanto poder para corporações e “mercados” desde 1989, pode-se dizer justamente que a Guerra às Drogas constitui a “saúde” do próprio Capital.
A partir dessa perspectiva, a reforma e a legalização seriam claramente condenadas ao fracasso por profundas razões de “infraestrutura” e, portanto, todo movimento para a reforma constituiria um esforço desperdiçado, uma tragédia do idealismo mal dirigido. O Capital Global não pode ser “reformado” porque qualquer reforma é deformada quando a forma em si é distorcida em sua própria essência. Movimentos para a reforma são autorizados para uma imagem de liberdade de expressão e a divergência permitida pode ser mantida, mas a reforma em si nunca é permitida Os anarquistas e marxistas estavam certos ao afirmar que a estrutura em si deve ser mudada, não apenas suas características secundárias. Infelizmente, os “movimentos sociais” em si parecem ter falhado e, agora, até mesmo suas estruturas primordiais devem ser, agora, “reinventadas” quase do zero. A guerra contra as drogas vai continuar. Talvez devêssemos considerar um modo de agir como guerreiros, em vez de reformistas. Nietzsche diz em algum lugar que ele não tem interesse em derrubar a estupidez da lei, uma vez que tal reforma não deixaria nada para o “espírito livre” realizar – nada a “superar”. Eu não iria tão longe a ponto de recomendar uma posição existencialista tão “imoral” e rígida. Mas eu acho que nos faria bem uma dose de determinação.
Além (ou à parte) de considerações de ordem econômica, a proibição de (alguns) psicotrópicos também pode ser considerada a partir de uma perspectiva “xamânica”. O Capital Global e a Imagem universal parecem ser capazes de absorver quase toda “periferia” e transformá-la em área de mercantilização e controle. Mas, de alguma forma, por alguma estranha razão, o Capital parece incapaz ou relutante em absorver a dimensão enteogenica. Ele persiste em guerrear ao que altera a mente ou substâncias de transformação, ao invés de tentar “cooptar” e hegemonizar seu poder.
Em outras palavras, parece que algum tipo de poder autêntico está em questão aqui. O Capital Global reage a este poder com a mesma estratégia básica que a Inquisição, tentando suprimi-lo de fora, ao invés de controla-lo por dentro (o “Projeto MKULTRA” foi a tentativa secreta do governo a penetrar no interior oculto do psicotropismo – e parece ter falhado miseravelmente). Em um mundo que aboliu a Periferia pelo triunfo da Imagem, parece que um “exterior”, no entanto, persiste. O poder pode lidar com esse exterior apenas como uma forma do inconsciente, ou seja, pela supressão em vez da realização. Mas isso deixa aberta a possibilidade de aqueles que conseguem atingir a “consciência direta” desse poder poderem efetivamente ser capazes de brandi-lo e implementá-lo. Se o “neoxamanismo enteogenico” (ou como você quiser nomeá-lo) não pode ser traído e absorvido pela estrutura de poder da Imagem, então podemos supor que ele representa um Oposto genuíno, uma alternativa viável a “um mundo” do Capital triunfante. Ele é (ou poderia ser) a nossa fonte de poder.
A “Magia do Estado” (como M. Taussig denomina), que também é a magia do Capital em si, consiste em controle social através da manipulação de símbolos. Isso é alcançado através de mediação, incluindo o meio final, o dinheiro como texto hieroglífico, o dinheiro como Imaginação pura, como “ficção social” ou alucinação em massa. Essa ilusão real tem tomado o lugar da religião e da ideologia como fonte ilusória de poder social. Esse poder, portanto, possui (ou é possuído por) um objetivo secreto, que todas as relações humanas sejam definidas de acordo com essa mediação hieroglífica, esta “Mágica”. Mas o neoxamanismo propõe com toda a seriedade que uma outra magia pode existir, um modo eficaz de consciência que não pode ser enfeitiçada pelo signo da mercadoria. Assim sendo, facilitaria a explicação de porque a Imagem parece não poder ou não querer lidar “racionalmente” com a “questão das drogas”. De fato, uma análise mágica do poder pode surgir do fato mencionado dessa incompatibilidade radical entre Imaginário Global e consciência xamânica.
Neste caso, de que consistiria nosso poder real em termos empíricos reais? Estou longe de propor que “ganhar” a Guerra às Drogas de alguma forma constituiria A Revolução – ou mesmo que o “poder xamânico” poderia contestar a magia do Estado de qualquer maneira estratégica. Claramente, no entanto, a própria existência da enteogenia como uma diferença real – em um mundo onde a verdadeira diferença é negada – marca a validade histórica de um Oposto, uma verdadeira Periferia. No caso (improvável) da legalização, esta Periferia seria violada, penetrada, colonizada, traída e se transformaria em pura simulação. Uma fonte principal de iniciação, ainda acessível em um mundo aparentemente desprovido de mistério e de desejo, seria dissolvida em uma representação vazia, um pseudo rito de passagem dentro cerco atemporal e ilimitado da Imagem. Em suma, teríamos sacrificado o nosso poder potencial por uma cópia mal feita da reforma da legalização, e não ganharíamos nada além de um simulacro de tolerância às custas do triunfo do Controle.
Mais uma vez: eu não tenho nenhuma ideia de qual deverá ser nossa estratégia. Acredito, porém, que chegou a hora de admitir que uma tática de mera contingência não pode mais nos sustentar. “Divergência consentida” tornou-se uma categoria vazia e a reforma uma mera máscara para a recuperação. Quanto mais lutarmos em “seus” termos, mais perderemos. O movimento de legalização das drogas nunca ganhou uma única batalha. Não na América, de qualquer maneira – e a América é a grande “superpotência” do Capital Global. Nos orgulhamos de nosso estado fora da lei como estranhos e marginais, como guerrilheiros ontológicos, por que então nós continuamente imploramos por autenticidade e validação (seja como “recompensa” ou “punição”) das autoridades? Que bem faria se nos fosse concedido esse status, essa “legalidade”?
O movimento de Reforma manteve verdadeira racionalidade e tem defendido reais valores humanos. Honra onde a honra é devida. Dado o grande fracasso do movimento, no entanto, não seria conveniente dizer algumas palavras a favor do irracional, da vastidão irredutível do xamanismo, e até mesmo uma singela palavra para os valores do guerreiro? “Paz não, mas uma espada!”.

Moscas na Sopa. Um esclarecimento anarcokunk sobre a Marcha da Maconha e a política partidária.

4 maio

Vasculhando o vasto material de registro que juntei ao longo de 6 anos de ativismo na Marcha da Maconha, achei uma foto da marcha de 2008, que na verdade não aconteceu, foi proibida. Na foto se vê  três grandes bandeiras do PSTU sobre uma pequena aglomeração de manifestantes no Arpoador, local marcado pelos ativistas da maconha. Eu sabia perfeitamente que o partido ou os militantes presentes, não tinham nada a ver com a organização da manifestação,  pelo contrário, nunca haviam se envolvido, então, o que faziam ali em tanto destaque?

Como o mandato judicial expedido, proibia qualquer manifestação pela legalização da maconha, os ativistas canabicos tiveram que baixar suas bandeiras. Por isso apenas as despudoradas bandeiras vermelhas, com a enorme legenda do partido em amarelo  tremulavam no céu. Não durou muito tempo. Como era ano de eleição o TRE estava de olho na propaganda eleitoral irregular, e fez com que os três (únicos) militantes do partido, que portavam as três imponentes bandeiras, as tirassem do cenário que tinha se armado no Arpoador.

Esse dia deve ter sido de fato exaustivo para os fiscais do TRE. Horas antes em Copacabana acontecia a “Marcha da Família”organizada pela candidata a vereadora pelo DEM Sílvia Pontes. Em sua passeata  inicia um discurso afirmando que a manifestação não é politica e em seguida agradece diversos “colegas de trabalho”. A passeata também contou com a participação dos inexpressivos Integralistas que aproveitaram a mídia para tirar a bandeira do armário.

Esse formato de manifestação que foge ao padrão das manifestações organizadas por movimentos estudantis, partidos e sindicatos, onde os militantes não tem muita experiência em outros movimentos sociais, por ser uma novidade, atrai muita atenção da mídia, e é muito suscetível a ser cooptada por forças politicas que tem interesse em cima dos temas chave para promover candidatos. Recentemente um candidato a vereador do Partido Verde tentou levar as reuniões da Marcha da Maconha de Nova Iguaçu para dentro da cede do partido, atitude duramente combatida nos foruns e comunidades da internet. O partido que tentou se apropriar do ato em Nova Iguaçu foi responsável pela proibição do mesmo alguns anos antes em Curitiba. Isso deixa claro que não existe realmente uma posição clara sobre a manifestação, que é vista apenas como  uma plataforma eleitoral, cada vez mais popular.

“Paranhos entrou com o pedido pela manhã. Depois dele, o também deputado estadual Roberto Accioly (PV) protocolou no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) um requerimento pedindo ao Ministério Público do Paraná que proibisse a “Marcha da Maconha”, programada para acontecer no próximo domingo, às 15 horas. “
http://www.band.com.br/noticias/cidades/noticia/?id=100000433275


C
omo nas primeiras edições os organizadores da Marcha eram anônimos por questão de segurança, algumas figuras ligadas a politica partidária sempre presentes, atraíram a atenção das câmeras e são constantemente associadas a manifestação, mas os mesmos nunca tiveram real envolvimento com a organização do ato.

 

2010 foi ano de eleições novamente, e a Marcha foi fortemente atrelada á campanhas políticas, dessa vez a vereadora Sílvia Pontes não se manifestou publicamente a respeito, mas integrantes do coletivo Marcha da Maconha RJ, passaram a ter a manifestação como principal foco de publicidade em suas campanhas, mesmo sobre protestos de  ativistas que não concordaram com o uso eleitoral da manifestação.

O uso partidário da maior manifestação da cultura canabica do Brasil tem gerado muitos debates dentro do movimento canabista.

Me pergunto quantas pessoas que foram até lá marchar no ano de 2010 imaginavam que acabariam numa propaganda eleitoral, apoiando candidaturas. Todos deveriam se perguntar quantos ativistas que botaram a Marcha onde está agora concordam com esse uso de seus trabalhos e luta. Sei que muitos não concordam. Eu sou um deles. Atrelar a Marcha, de modo tão forte a candidatos específicos de determinados partidos afasta militantes apartidários e anti-partidários, além de coloca-la junto a aquelas tradicionais manifestações ditas populares, mas na que na realidade  são incitadas por interesses partidários.

 

Vídeo

AnarcoKunk Apresenta Silvia Pontes

9 abr

“Eu uso o termo ação ao invés de legalização” Entrevista de Hakim Bey à revista High Times

5 abr

 

HIGH TIMES: Hakim, de onde você é?

HAKIM BEY: Bem, a informação padrão (que é tudo que eu falo) é que eu era um poeta da corte de um principado sem nome no norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream(2). Quando eu venho a Nova York eu fico num hotel em Chinatown.

HT: O que é a Zona Autônoma Temporária?

HB: A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário.

A questão é: como os indivíduos em grupos maximizam a liberdade sob as situações dos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizada, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazeirosas sem controle de hierarquias opressivas.

Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numa regularidade quase diária; você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado.

Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas – não somente declarar nossa antipatia teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui?

No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tão importante, porque o significado está incrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa.

HT: Uma Zona Autônoma Temporária necessariamente se abstém do uso do dinheiro?

HB: Isso é difícil em uma situação real, mas pode acontecer. O Rainbow Gathering (3), por exemplo, se abstém do uso do dinheiro. Isso é quase que uma garantia de um grau muito maior de autonomia temporária para as pessoas que estão participando.

Eles na realidade aumentam seu prazer saindo fora da economia de dinheiro/mercadorias.

HT: A imprensa ligou o fenômeno TAZ ao movimento cyberpunk. Você acha que a Internet é uma Zona Autônoma Temporária?

HB: Não. Um mal entendido muito peculiar veio à tona. A revista Time fez uma matéria sobre o ciberespaço que me citou erroneamente – o que me deixou particularmente feliz. Se a Time entendesse o que eu estava falando, eu seria forçado a reestruturar toda minha filosofia, ou talvez desaparecer pra sempre em desgraça.

Eles diziam que o ciberespaço era uma Zona Autônoma, e eu não concordo. Enfaticamente não concordo. Eu acho que a liberdade inclui o corpo. Se o corpo está em um estado de alienação, então a liberdade não é completa em nenhum sentido. O Ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.

A única coisa que a Internet ou o cIberespaço podem ter com relação à Zona Autônoma Temporária é que eles são instrumentos ou “armamento” para alcançar a liberdade. Então é importante trabalhar para proteger as liberdades de expressão e comunicação que estão abertas neste exato momento pela Internet contra o FBI e Clinton e a “Infobahn” (um bom termo em alemão para designar a auto-estrada da informação). Cuidado para não ser atropelado na Infobahn! Comunicando-se por uma BBS(4), um grupo pode planejar um festival de maneira muito mais eficaz, alguma coisa como um Rainbow Gathering, estruturado nas chances para maximizar o potencial para o surgimento de uma TAZ real. A Internet também pode ser usada para montar uma rede econômica alternativa genuína. Trocas e permutas trilhadas na Internet em comunicações privilegiadas.

HT: Você pode explicar o “Terrorismo Poético”?

HB: Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista – com a diferença de que o ato é de mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se você chamar o que você está fazendo de “performance de rua”, você já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alienou de si mesmo qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina e mentira (que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica de aumento da liberdade, tanto no nível individual quanto no social.

HT: Você pode fazer algumas sugestões especial ao leitor da HIGH TIMES para criar uma TAZ?

HB: Ok, tudo bem. Eu gostaria de dizer isso ao movimento canabista, e, em um nível mais amplo, eu gostaria de direcionar isto ao movimento libertário em geral, que é um aliado próximo, cruza e tem áreas de contingência com o movimento canabista.

Se os Libertários tivessem gasto os últimos quinze anos organizando redes econômicas alternativas para potencializar a emergência de uma Zona Autônoma Temporária e levá-la rumo a uma Zona Autônoma Permanente, ao invés de jogar o jogo fútil das políticas de terceiros, que é uma posição fracassada desde o início; se o movimento canabista tivesse colocado sua energia nos últimos quinze anos na organização de redes econômicas alternativas, não necessariamente baseadas em trocas “criminosas” de dinheiro por maconha mas nas necessidades e possibilidades básicas da vida real; se toda essa energia fosse direcionada nesse sentido, ao invés do que parece para mim uma quimera total, um fantasma totalmente abstrato chamado “poder político democrático legislativo” – então eu penso que estaríamos há muito no caminho claro da mudança revolucionária nessa sociedade.

Nessas circunstâncias, toda essa boa intenção e grande energia foi mal direcionada em um jogo – um jogo em que a autoridade cria as regras, e nas quais “eles” criaram as regras para que pessoas como eu e você não possam ganhar poder dentro desse sistema.

Agora isto é uma crítica anarquista que eu estou fazendo, com os motivos mais camaradas possíveis. Eu acho que é uma tragédia essa energia ter sido mal direcionada. Eu não acho que é tarde demais para acordar e ver o que está na verdade acontecendo(5) aqui.

Outro ponto que eu gostaria de falar é que a HIGH TIMES foi particularmente culpável durante a última eleição, quando conclamou seus leitores (incluindo uma grande porcentagem de usuários de maconha nesse país) a votar naquele Clinton filho da puta, baseado em um rumor extremamente suspeito: de que Al Gore, um conhecido mentiroso, hipócrita e embusteiro, cochichou pra alguns ativistas da maconha que ele estava do lado deles. E por isso, presumivelmente, milhares, se não milhões, de fumantes de maconha saíram e votaram em um outro bando de filhos da puta, se esquecendo toda a sabedoria do antigo slogan anarquista, “nunca vote, isso só encoraja os bastardos.”

Eu vou fazer uma aposta agora. Eu como a edição da revista em que isto será impresso se, sob a administração Clinton, existirem quaisquer melhoras na lei relacionada ao uso da cannabis por prazer. Pode haver um pequeno abrandamento no uso da maconha medicinal ou comercial. Mas não haverá abrandamento – de fato, somente haverá uma maior regulação – no uso da erva por prazer. Ok? E se isso não for verdade, eu como a porra da revista com uma merda de um leite e um açúcar.

HT: Isso seria um ato de terrorismo poético?

HB: Heh, heh.

HT: Você acha que o movimento canabista é contraproducente em alguns aspectos?

HB: Antes de qualquer crítica, eu preciso enfatizar que eu pertenço a uma religião em que a maconha é um sacramento, e eu sou um defensor vitalício de ações pró-maconha. Eu uso o termo “ação” ao invés de “legalização” por uma razão muito específica, na qual eu vou chegar. Daí eu ofereço crítica em um espírito construtivo. Eu quero que isso fique bem claro, como Nixon costumava dizer.

Nos anos em que vêm existindo um movimento pela legalização da maconha, todas as leis desse país ficaram piores e mais opressivas. No tempo em que vêm existindo um movimento de legalização da maconha, o preço da erva ficou proibitivamente caro por causa da Guerra às Drogas. Existe aí uma relação direta entre a Guerra às Drogas e o movimento pela legalização da maconha? Provavelmente não muita. Porém, tagarelar tudo todo o tempo e fazer tudo aberto, deixando as estatísticas e listas de discussões disponíveis para as agências de inteligência e outras não é uma tática boa quando você está na verdade lidando com uma substância ilegal.

Eu acho que temos um complexo de mártir nessa situação. Existem pessoas que querem confrontamento contra uma projeção psicológica do que eles acham que é a “autoridade”. Em outras palavras, contra quem é relativo à autoridade de um jeito autoritário. Simplesmente por desafiarem abertamente essa autoridade, eles estão se definindo como criminosos e vítimas do estado.

HT: Você acha que eles poderiam usar um pouco de terrorismo poético?

HB: Eu acho que eles poderiam usar um pouco de clandestinidade sensata e um pouco do senso do terrorismo poético, sim.

HT: Você escreveu extensamente sobre os tongs(6), as sociedades secretas Chinesas. Você diria que a economia underground da maconha é organizada de forma semelhante aos tongs?

HB: Absolutamente, é organizada como uma soma, como uma… bem, não é organizada como uma soma de tongs, e é isso que é o problema. O ponto é que um tong é uma sociedade secreta. E isto, novamente, é algo que não é somente uma fantasia; é algo real. Um grupo de amigos com afinidades que se junta para intensificar seu prazer e liberdade por meios que não sejam reconhecidos como legais pela sociedade criou inconscientemente uma tong. O que eu acho que eles poderiam fazer é conscientemente criar uma tong. O que nós precisamos aqui é uma estética e uma tradição de sociedades clandestinas não-hierárquicas.

Como nós organizamos verdadeiras redes secretas de permuta? Mas também, como nós criamos uma poética desta situação, como nós fazemos disto algo que funcione não somente num nível econômico prático, mas também num nível imaginário, onde os corações das pessoas estão comprometidos?

HT: Uma comunidade.

HB: Eu iria além, ao usar o termo de Paul Goodman, communitas, para mostrar que nós estamos falando sobre algo que é mais que um arranjo a esmo, mas realmente um objetivo pela qual nós estamos nos esforçando.

Eu vejo a Zona Autônoma Temporária como o florescimento temporário do sucesso dessas redes. O que nós estamos esperando é que as estruturas não hierárquicas atuais maximizem seu potencial para o surgimento de uma TAZ.

Vamos falar sobre as redes como uma espécie de subsolo rico em micélios que são por si só o corpo verdadeiro da planta. E ele pode se espalhar por milhas, como você sabe. Os cogumelos que aparecem, os frutos – eles são como uma Zona Autônoma Temporária, esses são as florescências da rede, se eu consigo fazer aqui minha metáfora botânica.

Uma das formas mais óbvias de florescimento é o festival: a rave, o Rainbow Gathering, os festivais Zippies(7) e coisas como o festival Burning Man(8) em Nevada – esses tipos de festivais espontâneos, não regulados, não mercantilizados, que aparecem.

HT: Mas talvez eles tenham vidas, “vidas de prateleira”(9) – só uma certa quantidade de tempo quando eles podem criar e florescer.

HB: Existem algumas coisas que são inerentemente temporárias. E existem outra coisas que são temporárias somente porque não somos fortes o suficiente para fazê-las permanentes. Digamos que você se instala por alguns meses em um lugar bonito perto de uma floresta, na beira de um lago, no verão, com alguns amigos e você tem uma TAZ verdadeira. Erotismo e beleza natural e liberdade pra correr pelado por aí e fumar maconha ou fazer o que você quiser. Mas como isto tudo é movido pelo dinheiro que as pessoas têm que fazer no mercado onde elas vendem o trabalho, isto pode durar somente um certo tempo. Nós gostaríamos de fazer isto durar para sempre, transformado a TAZ em uma PAZ, uma Zona Autônoma Permanente (Permanent Autonomous Zone). Nós não temos o poder econômico para fazer isto. É temporário somente porque nos falta o poder para fazermos isto mais permanente.

Outras coisas são claramente temporárias, e devem ser apreciadas pela sua temporalidade. Quando a essência saiu delas nós devemos perceber isto, e deixar esta forma em busca de outras formas. Então uma certa quantidade do que vem sendo chamado de “trabalho de flutuação” é necessário. Você tem que estar sintonizado com onde a liberdade e o prazer estão sendo potencializados e onde não estão, para que você possa espontaneamente se manter flutuando e ficar à frente desse fenômeno. Isso é exatamente o que hordas de pessoas estão fazendo por aí: velhos camaradas em rv´s(10), caras novos viajando clandestinamente, está tudo acontecendo. Não estou descrevendo um esquema utópico, é o que está acontecendo de qualquer jeito. Tenhamos consciência disso. Vamos perceber que isso é um verdadeiro valor, porque faz algo por nossas vidas, diferentemente de todo essa jogatina política estúpida.

Nós somos constantemente seduzidos a colocar nossas forças e nosso amor e nossa criatividade em objetivos que são imediatamente reocupáveis e cooptáveis e mercantilizáveis por “eles”. Isso devia parar.

HT: Eu vejo pessoas tendo problemas para comunicar-se com outras porque elas estão acostumadas a se falar pela televisão. Então, quanto você está trabalhando em uma comunidade, o primeiro passo para criar uma TAZ seria a comunicação.

HB: Absolutamente. As pessoas estão alienadas pela mídia. Isso é algo que tem que ser repetido constantemente. Quanto mais você se relaciona com os meios, menos você se relaciona com outros seres humanos em sua proximidade física. Novamente, isso não é uma grande teoria, isto é algo que simplesmente está acontecendo. Você gasta mais tempo vendo TV, você gasta menos tempo se relacionando com seus amigos. E quando isto se espalha em nível social, você começa a ver algumas coisas muito estranhas ocorrendo. A corrente tem mais força que qualquer participação individual na corrente. Existe uma sinergia negativa, um efeito de realimentação negativa por meio do qual sua alienação de outras pessoas está sendo causada por televisões e rádios e filmes e jornais e livros. Eu certamente não isento os impressos dessa crítica. E subitamente você descobre que não é somente uma questão de alienação, é uma questão de miserabilidade. Essa separação de você da realidade física está fazendo você miserável.

Muitas pessoas chegaram a esse ponto. Eles não sabem o que fazer porque nós não estamos dando a eles uma direção. Digo, radicais fumantes de maconha não estão dando a eles uma alternativa clara e realista, mas ao invés disso estão sonhando acordados com várias merdas de New Age e estilo de vida.

HT: Onde as pessoas podem achar Zonas Autônomas Temporárias às quais você estaria disposto a dizer quando e onde encontrar?

HB: Eu não posso – porque elas não existem precisamente em mapas com coordenadas cartesianas. Existem outras dimensões que não os mapas onde as Zonas Autônomas Temporárias podem ser achadas. Eu gosto de metaforizar estas dimensões como dimensões fractais, o que traz toda a questão de caos e complexidade. E uma das razões pelas quais eu não posso te dar nenhum indicativo é porque essa é uma situação fractal carregada de complexidade. A qualquer momento uma TAZ pode ocorrer. Em um nível mínimo, um jantar na casa de alguém pode repentinamente evoluir em uma TAZ. Não qualquer jantar, mas o potencial está lá porque é organizado de uma maneira não hierárquica, para convivência. E, em um nível máximo, você teve Zonas Autônomas Temporárias que duraram muito mais, onde a festa na realidade continuou por alguns anos. Quando estamos falando sobre a Zona Autônoma Temporária, per se, como nodos realmente intensos de consciência e ação, é possível que os seres humanos não possam aguentar muito disso. Talvez dezoito meses ou dois anos de festa contínua seja tudo que alguém pode aguentar.

HT: Bem, eu conheço algumas pessoas…

HB: Claro! Mas nós podemos falar de Zonas Autônomas Permanentes, você sabe, o que é um conceito diferente.

HT: Você chamaria o Rainbow Gathering de Zona Autônoma Permanente?

HB: Eu chamo ele de Zona Autônoma Periódica, o que é ainda outra variação dessa idéia. Existem certas Zonas Autônomas que você não pode manter o tempo todo, mas que você pode realizar com uma certa freqüência constante, e os festivais anuais são os exemplos. O que nós temos que fazer é evitar a mercantilização. Preciso dizer algo mais desse assunto? Ok?

O festival é um momento intenso, mas periódico. É momentâneo, mas periódico. Assim como no Rainbow, não é realmente necessário ser dono da propriedade, como eles inteligentemente descobriram. Qualquer grupo de pessoas na América pode fazer isso. Você não precisa se juntar às tribos Rainbow e seguir seu estilo de vida (que eu particularmente não acho atrativo). Você só faz um encontro em uma floresta nacional e monta sua tenda fora da linha de visão, ou você pega um lugar onde tenham poucos ursos.

No festival Burning Man, o guarda florestal mais próximo está a 75 milhas de distância, e eles converteram ele a um amigo e defensor do festival, de qualquer jeito. É organizado por alguns artistas da Califórnia que vão para a pior parte do deserto de Nevada, só um mar de areia preta até onde a vista alcança, e eles fazem uma estátua gigantesca de um homem de vime, então no último dia do festival eles ateiam fogo a ele e todo mundo bebe um monte de cerveja e vê ele queimar. É um tremendo sucesso e está sendo repetido sempre com uma periodicidade anual. As pessoas amam isto. Um jornal é impresso no lugar, uma mini estação de rádio FM é montada cada ano e todos os tipos diferentes de pessoas vêm, de caras que moram isolados em rvs a ciclistasa hippies, o pessoal “flower” e o pessoal Rainbow e os hobos(11) e artistas da Califórnia. E todo mundo se diverte muito, e então eles arrumam as malas e vão embora e esse é o fim daquilo, e o guarda florestal não incomoda eles porque está a 75 milhas de distância e ele gosta daquilo de qualquer jeito porque eles deixam o lugar limpo. Então qualquer um pode fazer isso. Você não precisa esperar pela permissão de alguma autoridade tribal.

HT: Criar uma TAZ é quase como criar o seu próprio espaço autônomo livre em você mesmo.

HB: Eu fico repetindo a frase “maximize o potencial para o aparecimento”. Eu sei que é uma frase meio grotesca e complicada, mas ela precisa ser sempre inserida em qualquer frase que nós falemos aqui. Você não pode declarar uma TAZ. Ou, se você pode, você é um mágico muito mais eficiente do que eu. Você simplesmente não pode decidir ter uma TAZ. Uma TAZ é algo que acontece espontaneamente. Quando de repente você diz, uau, sabe, tem N pessoas aqui, mas tem N mais N energia, excitação, prazer, liberdade, consciência. Certo? Esse momento de sinergia de corrente cruzada acontece quando um grupo de pessoas está tendo algo mais de uma situação que a soma do que os indivíduos estão colocando nisto. Você não pode prever isto. Tudo o que você pode fazer é maximizar o potencial para o aparecimento.

Glossário:

1. Bolas de Templo Nepalesas (Nepalese Temple Balls) – nome dado para pelotas de haxixe.

2. Airstream – http://www.airstream-rv.com – Tradicional marca americana de trailers e motor-homes, pertencente à Thor Industries.
3. Rainbow Gatherings – http://www.welcomehome.org/ – festival-encontro dos participantes da “Família Arco-Íris da Luz Viva”(Rainbow Family of Living Light), que na realidade não é uma organização, mas diferentes pessoas que pregam a construção de pequenas comunidades, não violência, estilo de vida alternativo, Paz e Amor, e tradições indígenas americanas. Esse encontro, que acontece anualmente, tem por objetivo rezar pela paz no planeta.

4. BBS – Bulletin Board System, um termo de informática que designa uma base de dados de mensagens acessível pela Internet, ou melhor ainda, um mural de recados eletrônico.

5. No original, “I don’t think that it’s too late to wake up and smell the coffee here.”

6. Tong – sociedade secreta chinesa, do cantonês tong, “assembléia de todos”.

7. Festival Zippy – http://www.fiu.edu/~mizrachs/Zippies.html – encontro das pessoas da cultura zippie – que se definem, em parte, como hippies tecnológicos, que acreditam em funções religiosas na tecnologia. O nome vem de hippies com zip.

8. Festival Burning Man – http://www.burningman.com – festival que reúne anualmente cerca de vinte e cinco mil pessoas, e envolve música, arte e comunidade.
9. Vida de Prateleira – extensão de tempo que um produto, especialmente alimento, pode permanecer na prateleira de uma loja antes de se tornar impróprio para uso; prazo de validade.

10. RV (recreation vehicles) – veículos como trailers e motor-homes.

11. hobo – http://www.hobotraveler.com/ – Alguém que viaja de lugar a lugar procurando por lares e empregos temporários.

Traduzido e revisado por Guilherme Caon em 20/03/2002.

revista high times, http://www.hightimes.com
retirado de RIZOMA, http://www.rizoma.net

Provos; Anarquismo Misticismo e Maconha em Amsterdam

27 fev

Amsterdam é mundialmente conhecida por sua tolerância ao uso de  drogas. O que poucas pessoas sabem é que na década de 60 havia um grupo de jovens anarquistas que foi responsável por uma revolução na forma de tratar questões que até hoje são vistas com intolerância pelo resto do mundo. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

A cidade de Amsterdam sempre teve um grande fluxo de  viajantes de toda a Europa.
Por ser uma cidade portuária recebia todo tipo de gente e pelo fato de ser um local isolado do resto do país era escolhido por muitos anarquistas, místicos e pensadores libertários como um bom local  para viver.  A cidade holandesa foi palco de muitas revoltas populares e o movimento anarquista se manteve muito forte por longos períodos. A atitude politicamente ativa dos habitantes de Amsterdam vivia em comunhão com uma forte cena esotérica. Além de abrigar diversos grupos de alquimistas, vegetarianos,  budistas e ocultistas de todas as espécies, a cidade foi o quartel general da Ordem da Estrela do Oriente de Krshnamutri. Algumas características da arquitetura e localização da cidade possibilitavam interpretações místicas a respeito de fluxos mágicos de energia que passavam por ali, e sobre simbolismos ocultos nos desenhos da cidade.

No inicio dos anos 60 duas figuras foram decisivas para o novo rumo do anarquismo e do esoterismo local:

Bart Huges (que foi marido de Amanda Feilding , um dos maiores nomes da luta pela legalização da cannabis atualmente ) um jovem estudante de medicina que em 1958 foi cobaia em estudos com LSD na Universidade de Amsterdam, fez um estudo que tinha como referencia o yoga e o efeito de substancias psicoativas. Sua teoria trouxe de volta a  prática ancestral da trepanação craniana. A cirurgia primitiva consiste em abrir um pequeno orifício no crânio, o que possibilitaria ao paciente um estado permanente de consciência expandida, como se ele estivesse para todo o sempre sobre o efeito de LSD. Huges fez de sua operação um evento público, retirando as ataduras da cabeça em uma praça,  ao som do rufar de tambores revelou seu “terceiro olho” à uma multidão atónita. O evento ficou conhecido como o mais importante happening (manifestação artística descendente das apresentações dadaístas) do momento. Exibições públicas das mais diversas naturezas, passaram a se tornar cada vez mais  frequentes. Entre os mais notáveis happenings está o do artista  Fred Wessel, que  após abrir todas as torneiras de casa promovendo uma inundação, abriu as portas para o inverno holandes, transformando sua casa numa pista  de patinação livre.

Robert Jasper  Grootveld era filho de um anarquista que sempre o alertou sobre os verdadeiros inimigos do homem: o K-K-K-K-K-K (Kerk, a igreja; Kapital, o capital; Kroeg, o bar; Kazerne a caserna e Kommenie, uma importante fábrica holandesa).
Grootveld teve uma vida incomum , largou cedo os estudos, viajou para França num triciclo e foi como marinheiro  para a Africa do Sul. De volta a Amsterdam viveu num barco, navegando pelos canais da cidade vestido em trajes africanos e fumando grandes cigarros de maconha. Num dia enquanto fazia um exercício de yoga indicado por  Bart Huges, (o jovem propagador da trepanação craniana) Grotveld caiu, e disse ter sido iluminado. Durante o acidente ele viu mais um K (Kanker, Câncer) e para complementar, o nome da maior fábrica de cigarros da Holanda de chamava Kerkhof.
Grootveld  Chegou a conclusão de que as empresas de cigarro são as representantes oficiais do grande mal que é o sistema capitalista e que o câncer era inevitável numa sociedade movida a fumaça de carros e fumo. A partir dai assumiu uma nova identidade, a do Mago Anti-fumo. Agora o místico anti-tabagista desenhava um grande K ou a palavra câncer em todas as publicidades de carros e cigarros da cidade e por isso foi preso, chegando aos jornais algumas vezes. Andava fantasiado pelas ruas  pedindo cigarros para “ajudar a acabar com eles da face da terra”, fazia intervenções em lojas que vendiam fumo e criou uma igreja (o K Temple) onde as pessoas fumavam sem parar e recitavam “mantras” como cof  cof cof (o som da tosse) ou: Publicidade, publicidade, mais publicidade.

Grootveld e seu K Temple

De acordo com o mago, esses rituais ajudariam as pessoas a largarem o vício por entenderem a natureza dele e tudo o que está por trás do hábito (um conceito tântrico).  Durante um dos rituais onde eram queimados em fogueiras, cigarros e propagandas, houve um incêndio que mandou o mago novamente para a cadeia. Preso e solto sistematicamente sua popularidade crescia cada vez mais.  Uma outra coisa notável sobre Grootveld é que ele defendia o uso de maconha como uma alternativa ao uso do fumo industrializado das grandes empresas

PROVOS!

Dos encontros no K Temple de Grootveld e nos  diversos happenigs que aconteciam na cidade, se formaram grupos de jovens anarquistas, artistas e tudo mais, que resolveram fundar um novo movimento chamado  Provo. Uma das principais atividades dos Provos era a elaboração de ações anarquistas chamadas “planos brancos”. O primeiro foi o da “bicicleta branca”, que tratava do transporte sustentável e do fim da propriedade privada. As bicicletas brancas dos Provos eram espalhadas pela cidade para que  todos pudessem usa-las e passa-las a diante, tornando menor a necessidade de carros, que eles qualificavam como um transporte sujo perigoso e capitalista.
A mensagem anarquista embutida no plano e a popularidade que o grupo estava tomando com a ação, fez com que a polícia entrasse em guerra contra as bicicletas, apreendendo muitas delas, que novamente surgiam nas ruas e voltavam a ser apreendidas, chamando a atenção dos jornais e revistas locais, o que acabou aumentando a notoriedade do grupo que atraia cada vez mais jovens.

O  plano que mais nos interessa aqui no contexto AnarcoKunk sem dúvida foi o Marihu Project

A ação anarco-canabista consistia num divertido e  audacioso jogo com as forças policiais;  Espalharam por Amsterdam centenas de maços pintados à mão com desenhos fluorescentes, contendo baseados feitos com folhas secas, algas, palha, pedaços de cortiça e também, naturalmente, maconha. Espalhavam também com as regras do jogo: “Cada um pode fabricar sua Marihu (…) Cada qual pode criar suas próprias regras, ou omiti-las”.  Algumas das regras gerais do jogo incluíam entregar à policia  participantes fumando maconha em casa ou até mesmo se entregar para a policia portando maconha;

” Fora os pontos que vem dentro dos maços de marihu os participante podem obter mais pontos se forem interrogados pela policia (10 pntos) se sua casa for revistada (50 pntos), se forem presos (100 pontos) ou se fizer,  por vontade própria   uma visita aos agentes dos narcóticos (150 pontos)”

As centrais telefônicas da polícia ficaram congestionadas com chamadas anônimas de pessoas entregando os vizinhos como usuários de maconha, muitas feitas pelos próprios Provos para aumentar a confusão.

Grootveld fala para a mídia: “Para dar caça a alguns consumidores de erva, uns agentes, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões-surpresa, que depois são propagadas na imprensa, mediante artigos escritos por jornalistas amiúde alcoolizados e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da televisão ou da nicotina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve consumir uma determinada substância?”

Um funcionário da polícia declara a imprensa: “… para nos a situação começa a se tornar problemática. Sabemos muito bem que no decorrer das reuniões dps participantes desse jogo fuma-se maconha, mas não podemos efetuar uma revista toda vez que somos chamados.”

Durante muito tempo os Provos foram  combatidos em Amsterdam. Foram responsáveis por um estrago num casamento da família real holandesa  e difundiram ideias contraculturais antes mesmo do movimento hippie. Em determinado momento as autoridades locais perceberam o potencial econômico daquelas manifestações que atraiam turistas de vários lugares do mundo para a pacata cidade. Percebendo que suas ações estavam sendo cooptadas pelos interesses do mercado e do Estado, os Provos fizeram uma cerimonia pública anunciando oficialmente o fim do movimento.

Para saber mais sobre os Provos existe uma versão virtual do livro de Matteo Guarniccia chamado;  Provos, Amsterdan e o nascimento da contracultura Link: http://www.4shared.com/get/ubvrZivl/Coletivo_Baderna_-_PROVOS.html

A Maconha na Cultura Indiana

24 fev

Shiva

Na India a maconha é usada tradicionalmente pelos devotos do deus Shiva,  o responsável pela destruição e renovação do universo,  a planta  é considerada um presente do deus para o homem. Diz a mitologia indiana que a erva surgiu de Shiva quando em certa ocasião, extasiado com um banquete que lhe foi oferecido por sua esposa Parvati, babou,  e do contato de sua saliva com a terra surgiu a planta abençoada.
Uma bebida feita a base de leite e maconha chamada Bhang é utilizada como veiculo de ligação entre o homem e o deus do panteão hindu . Todos os anos acontecem festividades no país, como o Mahâshivarâtri  “Grande noite de Shiva”, onde os devotos passam um dia inteiro de rituais  em jejum e no dia seguinte consomem  uma grande quantidade de Bhang

Preparação do Bhang

Outra festa tradicional na India é  o festival de Holi, onde os participantes se reúnem em praças abertas e promovem uma guerra de cores, atirando pigmentos coloridos uns nos outros. Nesta data festiva também se consome grandes quantidades de maconha através do Bhang e de bolinhos que são ingeridos em oferenda a Shiva.

Bebendo o Bhang

O Haxixe conhecido também como charas é consumido diariamente em grandes quantidades pelos Sadhus, religiosos renunciantes que abrem mão dos bens materiais e passam a morar na  rua meditando, fazendo oferendas a deus e vivendo de doações.  O uso do haxixe é feito em cachimbos tradicionais chamados chilums que representam  o corpo de Shiva,  o charas  representa a mente de Shiva, e a fumaça  a divina influência do deus com sua misericórdia.

Fumando no Chilum

Comprar maconha na India não é ilegal, existem lojas chamadas Bhang Shops onde se pode comprar a erva e derivados como a bebida sagrada e biscoitos.
Turistas de todo o mundo vão a India em busca de iluminação espiritual e a maconha de acordo com praticantes nativos pode ser uma ferramenta indispensável nessa busca.

Turismo Tântrico

Para terminar um procedimento básico para o uso ritual do charas ou Ganga, seguido de dois mantras para oferecer a erva aos deuses.

Antes da primeira tragada :

“Alakh!”
“Bam Bam Bholanath!”
“Bom Shiva!”

Oferecendo a ganja pra Balarama:
“Baladev Baladev Hara Hara Ganja! “

Oferecendo para Shiva, quem segundo a lenda, de sua saliva criou a erva:
“Om Shiva Shankara Hari Hari Ganga!”

Namastê.

Garoto de 2 anos recebe comida com maconha para fins medicinais

24 fev

Droga foi prescrita a Cash Hyde, que luta contra tumor no cérebro. Pais afirmam que uso aumentou o apetite e melhorou o sono do filho.
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Do G1, em São Paulo

O norte-americano Cash Hyde, com apenas dois anos e seis meses de idade, é uma das pessoas mais jovens no mundo a receber comida misturada com maconha para fins medicinais. Ele passou por uma cirurgia para retirar um câncer no cérebro e passa atualmente por tratamento para evitar que o tumor retorne.

Somente no estado norte-americano de Montana, 51 pessoas abaixo dos 18 anos usam a droga para fins medicinais. Nos Estados Unidos, 28 mil pacientes estão recebendo maconha como parte de tratamento médico, sejam eles adultos ou não.

Segundo os pais de Cash, a maconha ajudou o garoto a suportar os efeitos da quimioterapia, fazendo Cash ter mais apetite e dormir melhor. Antes de iniciar o tratamento com a droga, o menino chegou a passar 40 dias sem comer, chegando ao ponto de não conseguir mais erguer a própria cabeça. Ele sobrevivia com nutrientes injetados diretamente na circulação.

As informações são do portal “KTLA News”.

Fonte: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/02/garoto-de-2-anos-recebe-comida-com-maconha-para-fins-medicinais.html